Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2012

Quase mesmo

Quase dito

Dois raios partem da cabeça,
Partem a cabeça e param na língua.
Deixam a mente e vivem à míngua,
Sem para a levar uma caleça.

Sidney Azevedo
Ditado.
(Um pouquinho...)

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Inseto. Incerto.

Um inseto incomoda muita gente...



Não sei que bichinho é este. Mas fica aqui assim mesmo. Encontrei-o perto de casa. Disseram-me ser um barbeiro, desses que transmitem a doença de chagas. Estranho. Não lembro de barbeiros verdes... Quiçá seja um barbeiro marciano ou um barbeiro albino. Ou não. Talvez não seja nem marciano nem albino. Talvez nem mesmo barbeiro. Ainda penso que é uma mera existência no quintal. Um tipo de existência que se quadruplica no verão, em especial em casas arborizadas não muito distantes de rios - como, aliás, é o caso da minha...

Não gosto do verão, e já o falei aqui. E nada tenho contra insetos - aliás, eles são fascinantes..., vejam na foto. Mas não os quero por perto, em especial se desconhecidos. Mas, se não fosse o verão e a tendência que ele tem em fazer-nos nos aproximar uns dos outros - uma vez que nos força a sair de nossas tocas e buracos por conta do calor -, como poderia ter encontrado um tal visitante aguardando um clique? Ele não estaria no meu quintal - ou, pelo menos, não à minha vista... Nem eu, muito possivelmente, estaria no quintal.

De qualquer modo, ei-lo aí, camuflando-se no pequeno peso de pedras que minha avó confeccionou para segurar a toalha na mesa de café posta no meio do quintal, aparentemente porque cores se assemelham a seu tom esverdeado, andando lento, quieto, quase estático e aparentemente morto, mas inquietante, como se esperasse uma aproximação nossa para um bote certeiro e uma picada com um veneninho que, no mínimo, pudesse pôr um homem adulto para dormir. Quiçá nada disso. Mas um estranho visitante inquieta, e me faz detestar o verão, ainda que tenha que reconhecer nele algumas ressalvas a serem feitas nesse detestar.

Sidney Azevedo
Sem tempo para revisão gramatical
(Sem tempo para insetos e para calor...) 

Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Menorização

A lente

Está aqui um pequeno desenho, feito já há alguns dias, surgido de um lampejo que aconteceu quando estava concluindo a monografia. Não sei por que motivo...


Lamento a falta de caprinho nestes rabiscos. Mas creio que eles foram fiéis à idéia daquele momento.

Sidney Azevedo
Observando, observado, observante
(Absorvido?)

Segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Ecos do passado

De visitar a história musical de nossa cidade
Ladeada por arranjos de flores, Santa Terezinha observava com seus olhos de gesso para o significativo público presente à apresentação do Quarteto Sambaqui, ocorrida neste domingo, às 10h30, no salão comunitário da igreja Nossa Senhora Aparecida, Quilômetro Quatro. Lá estavam 16 pessoas, se se quiser contar com os músicos. Dos outros doze restantes pode-se ainda descontar o responsável da parte da Fundação Cultural, Rodrigo Vargas, e também o secretário regional do Boehmerwald, Cristóvão Petry - que lá estariam de qualquer modo. Este último veio acompanhado por dois de seus filhos, uma menina de uns nove anos e um rapazinho de cinco ou seis que, aliás, estava bastante empenhado na tarefa de arrastar cadeiras durante a execução das melodias que foram compostas e inspiradas por e em Joinville e Santa Catarina no início do século passado - e se ainda há alguém que porventura não associe diretamente a expressão "século passado" ao período compreendido entre os anos 1901 e 2000, esta intercalação vale como puxão de orelha -, digo isso porque, conforme Raimundo Bernardes, parte das composições é de autoria de pessoas vieram para cá morar.

Enquanto eram executadas canções como "O som do bosque", "Chamarrita" e "Minueto" (João Graxa Gonçalves, Paulino Martins e Pepi Prantl, respectivamente) - cada qual com sua própria história e momento específico que não terei como reproduzir aqui com exatidão - vez ou outra, pelos comentários encantados expressos no silêncio da tentativa de comunicação de um dos mais folclóricos personagens do bairro. Àqueles que eventualmente não o conheçam, basta dizer que é um homem portador de necessidades especiais que procura sempre os lugares onde há música e que está presente em quase todas as igrejas da região tocando seu violãozinho imaginário e tentando formar uma banda com quem quer que encontre à sua frente.

Palmas efusivas se seguiam a cada música, e os murmúrios de "muito bom" ecoavam, baixos, no salão praticamente vazio. Um dos presentes, violeiro em um grupo de terno de reis e morador próximo da igreja, também ouvia com cara de satisfação ao lado da esposa. (Só quero abrir aqui um pequeno parêntesis: mas, porque violeiro e não violonista? A princípio, o instrumento não vem a ser quase o mesmo? De um modo ou de outro, o que determina o nome é a música, e "violonista" parece remeter para algo mais refinado, mas toda música, em si mesma, é um refinamento. Inclusive o sertanejo sobre o qual reside o terno de reis). Talvez falte umas palavrinhas mais sobre o outro casal presente, sobre os gracejos ao "fóssil-sambaqui" do grupo e também sobre os copinhos de água que o representante da Fundação Cultural deixou aos pés dos músicos. Todavia receio que esse excesso de detalhes com que costumo rechear meus textos acabe encobrindo dois aspectos essenciais do que aconteceu nessa apresentação.

O primeiro deles é que o trabalho de recuperação dessa música do século passado traz àqueles que foram catequizados na ideia de Joinville como uma cidade alemã em suas raízes uma grata surpresa: a presença de um multiculturalismo muito brasileiro já presente, em que a cidade serve de ponto de encontro de raizes germânicas, lusitanas, negras, açorianas, ítalas, ao menos para a elite, já que as pessoas a viviam nas ruas, por vezes ao comprar um peixe no mercado público.

O segundo ponto tem a ver com o número de pessoas que estavam acompanhando a apresentação. Talvez algum leitor tenha ficado intrigado com o uso da palavra "significativo", no início deste texto, para se descrever um público bastante inferior a 100 pessoas. Bem, significativo, aqui, não quer dizer massivo, mas quer dizer que há um aspecto importante de uma determinada realidade e que esse aspecto pode fazer pensar sobre ela, entendê-la e até explicá-la. O aspecto aqui, neste caso específico do Km 4, é o aparente pouco interesse da população neste tipo de evento. E quanto a isso podemos elencar algumas teorias, que pude auferir junto a alguns dos "nativos" do bairro: a primeira é, por obviedade, a má divulgação do evento no próprio bairro. Eu mesmo só tomei conhecimento do evento no dia, e, mais curioso ainda, nos avisos dados ao fim da missa. O segundo é que os moradores não deixariam seus almoços, e o dia de reunião da família para assistir a uma apresentação musical. Todavia, o problema aí talvez não seja tão "natural", mas sim fruto da falta de uma política cultural dentro do próprio bairro, talvez de algum incentivador, entre outras coisas. Talvez estas considerações não estejam muito próximas da realidade, mas estão entre os motivos possíveis. E agora farei este texto repousar aqui neste canto empoeirado da internet, até que alguém o encontre, como às partituras esquecidas do Arquivo Histórico, trazidas à vida por estes músicos.

Sidney Azevedo
Antigüidade
(Novidades...)

Domingo, 2 de Outubro de 2011

Conversas de rua - I

Criar, um ato espontâneo


Crianças gostam de criar coisas. Não é à toa que o radical de "criança" é "cria-". A todo momento a criança reinterpreta o mundo com seu olhar original, ainda livre de toda a massa de idéias feitas que nos embaralham as vistas. E foi sobre uma das criações que vi de uma dessas crianças que decidi escrever hoje.

Estava assim: o sol já se tinha posto e a luz das lâmpadas incandescentes formava um interessante tom avermelhado na rua. Eu voltava da faculdade para casa quando me deparei com um pai e um filho em frente a uma fábrica de produtos de plástico cá do bairro travando uma interessante conversa sobre um dos empregados da fábrica, conhecido por ambos.

- Pai, não é aqui que "trabala" fulano?

- Sim, filho, ele "trabala" aqui.

- Pois vou "trabalá" aqui.

O pai permitiu-se um riso dilatado, sincero e espontâneo (ora, mas o que estou escrevendo..., o que é espontâneo, em geral, é sincero, ao menos na aparência - todavia, nem tudo que é sincero é espontâneo...).

- Mas tu nem sabe "trabalá"...

O filho olhou um tanto intrigado para o pai, sem entender o sarcasmo da observação dele. Talvez as crianças não saibam o que é sarcasmo, ou, pelo menos, como formá-lo e provocá-lo conscientemente.

- Não sei?

- Hem..., não...

Daí para a frente não sei o que conversaram, fiz uma curva em uma esquina que me distou deles. Também não me lembrei da conversa de imediato, apenas quando cheguei em casa e me lembrei de trabalhar em um texto. "Trabalhar? Porque não 'trabalar'?" foi a anotação que recuperei da memória e escrevi naquele momento.

O que seria, pois, o "trabalo"? Parece que só se removeu o agá na fala não totalmente desenvolvida de uma criança... Mas isso é deter-se à forma. O que há de fato nessa palavrinha aparentemente insossa, mas que vive na graciosidade da fala de uma criança, é uma dessas invenções infantis: não lhe importa saber que é o trabalho, mas sim que ele pode ser visto como algo que leva as pessoas a estarem fora de casa.

Não lhe importa talvez saber com exatidão o que é se faz nesse estar-fora-de-casa, pois pode aí imaginar haver brincadeiras e um pouco daquela liberdade que por vezes ela pode pensar em ter um pouquinho longe dos pais, sem a preocupação de não os ver, que só assalta a criança quando lhe atinge em cheio a solidão.


"Trabalo" não é trabalho. Parece ser algo lúdico. Um jogo, talvez até um estado de espírito. É pôr à mesa o intuito de se fazer algo necessário com alguma diversão. Algo que é da vida retirado no dia em que a força de fazer pesa mais que a de vontade de se divertir. No dia em que, em suma, se se torna "adulto"...


Sidney Azevedo
Em não-trabalho
(Anti-trabalho?)

Sexta-feira, 3 de Dezembro de 2010

Sem importância, sem necessidade, sem motivo

Três correndo

Eu saía da faculdade para o terminal central quando me deparei com uma cena dessas que atrai atenção sem a clamar. Eram três sujeitos correndo. O que há de especial nisso é que não é todo dia que se alguém correndo pelo Centro. Muito menos três pessoas. Todavia, acredito que, para a maioria dos joinvilenses, ver alguém correndo no Centro é tão impactante quanto saber que há uma formiga debaixo do pé. Então, porque escrever sobre isso? Pela formulação de uma sensibilidade maior? Para denunciar a morte da sensibilidade no processo de metropolização ideológica de uma província que não se vê como tal? Nada disso. É que há, no evento, mais algumas coisas interessantes.

A coisa um é que os sujeitos carregavam sacolas plásticas e mochilas e, nestas sacolas e mochilas, objetos que lembravam a venda de CDs com a qual deparamos sempre que passamos pelas galerias e centros nervosos de Joinville protegidos da vista imediata da polícia. Isto deve soar sugestivo. Haveria no fato uma perseguição policial, então. Haveria, mas não havia. Haveria porque está-se acostumado a prever esse tipo de ação. Em uma mente destreinada como a minha, nada parecia mais normal que pensar um vendedor de material pirateado fugir de agentes da polícia encarregados da fiscalização. Mas não estava a polícia a tentar alcançar os sujeitos. Na verdade, mesmo os que presenciaram o episódio viraram a cabeça sem se perguntar muito mais sobre o que havia naquelas sacolas ou sobre o que faria os sujeitos correrem.

Na verdade também eu não dediquei muito à questão. Que talvez se resumisse àquele instante muito breve em que nos perguntamos, “O que é isso?”, talvez fosse uma ilusão, não sei. Talvez ainda não tenha cessado em mim o existencialismo. Há antídoto para isso?

Sidney Azevedo
Um antídoto!, por favor!

Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

Toques superficiais na teoria

De sentir o tempo

Ontem este que vos escreve pensou em refletir no dia seguinte - que seria hoje e efetivamente é... - alguma coisa ligada à questão da sensibilidade. Por que isso? Bem, comecemos com isto do tempo, que talvez tenha saltado aos olhos argutos que leram a anterior e estranha frase. Reside no tempo a nossa fundamental forma de sensibilidade? Nós, modernos de tanto assim nos dizermos? Lembro-me muito de um livro do historiador francês e estudioso da medievalidade Jacques Le Goff, em que ele descreve a sensibilidade medieval como fundada no valor da insegurança.

- Insegurança como valor? Estás doido é?

Não, não é bem como valor... É como uma constante, digamos, sentimental, e, relembrando outra vez - espero não estar a me fazer incômodo com isto - "sentir e pensar é, no fundo, a mesma coisa". É o sentimento de insegurança que levava os medievais a agirem como agiam. Buscando sempre meios de fugirem da instabilidade e da mão incerta do clima que ora fustiga e ora reaviva a certeza da sobrevivência, entre fomes e farturas que criam um eremitismo e uma busca itinerante da vida ameaçada pelo avanço sereno e inevitável da chegada de um céu e de um inferno.
Mas está muito medievalizado este texto quando a intenção inicial era apenas mostrar que há outras fontes de sensibilidade, sempre em desenvolvimento. Mas, a questão central, que faço consciente de não poder responder aqui, em tão exíguo tempo e reflexão, é se não é o tal de tempo nossa matriz de sensibilidade. Vide Kant, é.

- Kant de novo não...

- Mas é preciso, já vais ver:

O filósofo de Königsberg diz que o começo e o motivo de todo o nosso conhecimento, ou pelo menos aquele relacionado às coisas mais simples e imediatas, ainda não abstratas, mas que vão ajudar na construção dos nossos instrumentos racionais, são nossas relações com o espaço e o tempo. Por infelicidade não recordo com precisão quais são as definições desses conceitos. Mas o espaço se relaciona com o lugar, com o estabelecimento de uma certeza referente à forma. Isso não quer dizer que o espaço tenha alguma correspondência na imagem, mas na constituição de corpos que permitem o reconhecimento de distintas entidades. Tempo, todavia, nada mais é que a relação de diversos estados de formas em modificação coerente. Para uma tradução, seria necessário dizer assim:

- É que tens vários negativos que, se colados e passados diante dos olhos, rendem o entendimento de uma seqüência perfeita, como uma película fílmica.

O que nos interessa aqui não é o absurdo dessa proposta espaço-temporal de Kant, que tenta racionalizar ao extremo a existência como numa tentativa desesperada de fazer que o tempo se arraste até uma contemplação eterna. O que interessa é que Kant é o cara do pós-Revolução Francesa e aquele que funda filosoficamente a ciência. É o sujeito moderno. E esse conceito de tempo que ele formula nada mais é do que a relativização das relações. Ou seja, se por um lado, pressupõe-se uma linearidade na construção temporal, por outro entrevê-se que é exatamente o contrário, que as relações entre as coisas podem ser estabelecidas em quaisquer aspectos que constituam sentido. Isto é. O moderno implica a possibilidade de se relativizar o tempo, talvez a única fixa na Idade Média - exatamente por inexistir.
Isso é metarialmente possível porque o burguês cada vez mais deve maximizar sua produção e atender à demanda de um mercado que se expande com a tranformação cada vez maior da moeda física em capital abstrato.
Mas, que é moderno para que se lhe atribua tantas características dialéticas, dignas de um monstro feérico de garras afiadas?
À etimologia: moderno vem de modus em latim, que, fundamentalmente, representa modo, ou como que se faz. A palavra implica, ainda, menção conceitual ao tempo presente. Ou seja, moderno é o feito agora, mas ainda não acabado. Com tudo isso, de fato a característica da modernidade é a instabilidade do tempo que se almeja dissipar com a recrudescente institucionalização das coisas que fazem parte direta da formação das pessoas (Igreja, escola, família, trabalho).
Ou seja, a aparente redução da instabilidade material da medievalidade nos entregou a outra insegurança: a do tempo, da hora, do minuto, do segundo, do instante. O Deus que se propor mestre do tempo, e não um provedor como o foi na I. M., há de ser o que vai reger a religião daqui para a frente, porque será preciso tranqüilizar o homem com o tempo, fonte de sua abstração e realidade.
Talvez me faltem provas concretas para dizer que é o tempo que domina as relações do homem moderno com a existência. Mas fica aí. O sentimento do tempo é a matriz de sensibilidade do moderno.

Sidney Azevedo
Um excerto
(Aguardando pedidos...)