De sentir o tempo
Ontem este que vos escreve pensou em refletir no dia seguinte - que seria hoje e efetivamente é... - alguma coisa ligada à questão da sensibilidade. Por que isso? Bem, comecemos com isto do tempo, que talvez tenha saltado aos olhos argutos que leram a anterior e estranha frase. Reside no tempo a nossa fundamental forma de sensibilidade? Nós, modernos de tanto assim nos dizermos? Lembro-me muito de um livro do historiador francês e estudioso da medievalidade Jacques Le Goff, em que ele descreve a sensibilidade medieval como fundada no valor da insegurança.
- Insegurança como valor? Estás doido é?
Não, não é bem como valor... É como uma constante, digamos, sentimental, e, relembrando outra vez - espero não estar a me fazer incômodo com isto - "sentir e pensar é, no fundo, a mesma coisa". É o sentimento de insegurança que levava os medievais a agirem como agiam. Buscando sempre meios de fugirem da instabilidade e da mão incerta do clima que ora fustiga e ora reaviva a certeza da sobrevivência, entre fomes e farturas que criam um eremitismo e uma busca itinerante da vida ameaçada pelo avanço sereno e inevitável da chegada de um céu e de um inferno.
Mas está muito medievalizado este texto quando a intenção inicial era apenas mostrar que há outras fontes de sensibilidade, sempre em desenvolvimento. Mas, a questão central, que faço consciente de não poder responder aqui, em tão exíguo tempo e reflexão, é se não é o tal de tempo nossa matriz de sensibilidade. Vide Kant, é.
- Kant de novo não...
- Mas é preciso, já vais ver:
O filósofo de Königsberg diz que o começo e o motivo de todo o nosso conhecimento, ou pelo menos aquele relacionado às coisas mais simples e imediatas, ainda não abstratas, mas que vão ajudar na construção dos nossos instrumentos racionais, são nossas relações com o espaço e o tempo. Por infelicidade não recordo com precisão quais são as definições desses conceitos. Mas o espaço se relaciona com o lugar, com o estabelecimento de uma certeza referente à forma. Isso não quer dizer que o espaço tenha alguma correspondência na imagem, mas na constituição de corpos que permitem o reconhecimento de distintas entidades. Tempo, todavia, nada mais é que a relação de diversos estados de formas em modificação coerente. Para uma tradução, seria necessário dizer assim:
- É que tens vários negativos que, se colados e passados diante dos olhos, rendem o entendimento de uma seqüência perfeita, como uma película fílmica.
O que nos interessa aqui não é o absurdo dessa proposta espaço-temporal de Kant, que tenta racionalizar ao extremo a existência como numa tentativa desesperada de fazer que o tempo se arraste até uma contemplação eterna. O que interessa é que Kant é o cara do pós-Revolução Francesa e aquele que funda filosoficamente a ciência. É o sujeito moderno. E esse conceito de tempo que ele formula nada mais é do que a relativização das relações. Ou seja, se por um lado, pressupõe-se uma linearidade na construção temporal, por outro entrevê-se que é exatamente o contrário, que as relações entre as coisas podem ser estabelecidas em quaisquer aspectos que constituam sentido. Isto é. O moderno implica a possibilidade de se relativizar o tempo, talvez a única fixa na Idade Média - exatamente por inexistir.
Isso é metarialmente possível porque o burguês cada vez mais deve maximizar sua produção e atender à demanda de um mercado que se expande com a tranformação cada vez maior da moeda física em capital abstrato.
Mas, que é moderno para que se lhe atribua tantas características dialéticas, dignas de um monstro feérico de garras afiadas?
À etimologia: moderno vem de modus em latim, que, fundamentalmente, representa modo, ou como que se faz. A palavra implica, ainda, menção conceitual ao tempo presente. Ou seja, moderno é o feito agora, mas ainda não acabado. Com tudo isso, de fato a característica da modernidade é a instabilidade do tempo que se almeja dissipar com a recrudescente institucionalização das coisas que fazem parte direta da formação das pessoas (Igreja, escola, família, trabalho).
Ou seja, a aparente redução da instabilidade material da medievalidade nos entregou a outra insegurança: a do tempo, da hora, do minuto, do segundo, do instante. O Deus que se propor mestre do tempo, e não um provedor como o foi na I. M., há de ser o que vai reger a religião daqui para a frente, porque será preciso tranqüilizar o homem com o tempo, fonte de sua abstração e realidade.
Talvez me faltem provas concretas para dizer que é o tempo que domina as relações do homem moderno com a existência. Mas fica aí. O sentimento do tempo é a matriz de sensibilidade do moderno.
Sidney Azevedo
Um excerto
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